quinta-feira, 30 de junho de 2016

CASCAVEL E REGIÃO NA REVOLUÇÃO DE 1924

O Oeste paranaense foi palco de conflito armado durante a Revolução de 1924. São episódios que trazem elementos vivos e contundentes sobre a realidade da região naquele período. A batalha final entre os rebeldes e as forças do governo ocorreram no povoado de Catanduvas, localizado a 40 quilômetros da atual cidade de Cascavel.
 Iniciada em 5 de junho daquele ano na capital paulista, por militares descontentes com a política dos “barões do café” e com o vínculo nocivo entre o presidente Arthur Bernardes e a Inglaterra — reflexo do Movimento Tenentista, ocorrido em 1922 — a Revolução de 1924 alastrou-se para outros estados, encontrando ecos principalmente no Rio Grande do Sul. O movimento era liderado por Isidoro Dias Lopes, Miguel Costa, João Cabanas e Joaquim Távora. Enquanto os tenentes se rebelavam em São Paulo, o engenheiro militar Luis Carlos Prestes dava prosseguimento à sua revolta em terras gaúchas, iniciada em dezembro de 1923.
Após os primeiros bombardeios da cidade de São Paulo pelas forças legalistas, os revolucionários bateram em retirada e refugiaram-se no Mato Grosso. O objetivo era aguardar o momento oportuno para retomar a luta, com o apoio dos gaúchos. Porém, como as vias até o Mato Grosso estavam guardadas pelos federais, restou aos fugitivos descer pelo rio Paraná.
O abandono de São Paulo e a localização das forças revolucionárias na região do Iguaçu constituíram um ato de sabedoria político-militar. Deles decorreu a propagação do movimento revolucionário. Ninguém de bom senso negará que o espírito revolucionário, que avassala o Brasil, seja uma resultante daquela retirada, que manteve viva a Revolução de 5 de julho. (Lourenço Moreira Lima, 1979)
Apesar da bravura demonstrada pelos comandantes e soldados dissidentes, nesse momento a tropa já se encontrava debilitada. Dos seis mil homens que partiram de São Paulo, chegaram ao Paraná somente 3,8 mil. Os restantes estavam mortos, aprisionados, ou haviam desertado pelo caminho.
Os rebeldes perceberam nos sertões oestinos um lugar seguro para fugir de São Paulo e, concomitantemente, planejar a estratégia de fazer chegar a outros centros a revolução (...). O fato iria marcar profundamente a região, pois embora vencidas nos limites de Catanduvas, as tropas iriam atrair a atenção para um território dominado por interesses estrangeiros, onde se praticava a exploração mais descabida do trabalho humano. Nomes como Cascavel e Toledo surgiriam pela primeira vez nos relatórios de guerra, chegando ao conhecimento do público brasileiro, que acompanhava pelos jornais os embates travados nos sertões. (Piaia, 2010)
As forças federais contavam com o apoio do governador paranaense Caetano Munhoz da Rocha, que enviou à região Oeste o Regimento de Cavalaria Provisório, um contingente de 150 homens, chefiados pelo capitão Dilermando Cândido de Assis. A presença do batalhão tranqüilizou os moradores do Oeste, que, avisados da chegada iminente dos rebeldes e com medo da guerra que se avizinhava, preparavam-se para fugir.
Saindo de Ponta Grossa, Assis alcançou Guaíra no dia 2 de agosto. Enquanto isso, os revoltosos desciam o rio Paraná à bordo de cinco vapores, apreendidos da Companhia de Navegação São Paulo-Mato Grosso. Sob o comando do tenente Garcia Feijó, no dia 24 de setembro de 1924 as forças de Assis foram dominadas, e os vencedores tomaram a cidade de Guaíra e as instalações da empresa Matte Laranjeira. Em seguida dividiram-se: o general Isidoro e o coronel João Francisco desceram rumo a Foz do Iguaçu, enquanto Garcia comandou seus soldados até o povoado de Lopey, localizado poucos quilômetros ao sul de Toledo. Chegando a Cascavel, o destacamento de cavalaria derivou em direção a Catanduvas.
O trabalho dos soldados de ambas as facções não era fácil na mata densa. A fertilidade da terra fazia crescer rapidamente o mato sobre as trilhas, dificultando o deslocamento das tropas. As perseguições na mata obrigou a abertura de muitas picadas, que mais tarde seriam transformadas em estradas.
Os meus homens iam na frente derrubando o espesso taquaral, onde o pique dos revolucionários constantemente era perdido, para descansarem onde o pique atravessava a floresta espessa, composta de árvores altas. Em consequência do taquaral, caminhávamos muito lentamente, ao passo que na vegetação alta e grossa o nosso serviço ia muito ligeiro, por se descobrir, no meio do mato baixo, o rastro deixado pelos soldados de Prestes. (…) Quase não encontrávamos vestígios da antiga picada e para nós constituía alegria encontrar um colmo de taquara cortado ou um tronco abatido pelos revolucionários, que nos indicasse o caminho. (Lima Figueiredo, 1937)
O tenente João Cabanas, comandante da “Coluna da Morte”, demonstra sua intimidade com as letras num texto abundante, em que compara as investidas de insetos a ataques inimigos.
Dormir alguém, em uma ilha, embora respirando a fragrância de flores desconhecidas ou embalado pelo rumorejar das águas, é quase um sacrifício; nuvens de mosquitos em formatura aérea de combate, nos atacam, aos grupos, obrigando-nos a uma defesa contínua e que consiste em abanarmo-nos constantemente com pequena ramagem. Depois, os carrapatos de diversos physicos, desde o invisível “micuim” até o metálico “dez reis” ou “estrello” dos mineiros... Penetram sorrateiramente pelas aberturas das roupas e afincam-se, ávidos, de sangue quente, ao corpo do desgraçado, que se levanta em desespero. Além, a infantaria das formigas, num desfilar incessante, ferrão em riste, castigando o invasor de seus domínios. De quando em quando ouve-se o seco chocalho de uma cascavel... E assim, sem tréguas, acossada por vários inimigos, num agitar descompassado de mão e cabeça, a victima busca a praia. E se procura na água um refrigério, se tenta suavizar o ardor, que como uma gafeira (sarna) canina, lhe corroe a pelle e lhe aquece o sangue, ao chegar à beira da corrente, retrocede mais apavorado ainda: pacientes e innumeráveis crocodilos, baterias de artilharia blindada, alli assentadas, esperam a presa. Se retorna à matta, encontra as ortigas, a unha de gato, a tiririca, o aguilhão, do taquarussu, o vespeiro qie aparece ao quebrar-se um galho, as aranhas monstruosas, a taturana, a manada furiosa de queixadas e catetos, o bicho de pé que aos milheiros irrompem do excremento do tapir. (Cabanas, 1926)
De Porto Mendes, Cabanas deslocava-se com sua tropa até as margens do rio Piquiri, um trecho de quase 200 quilômetros de selva. Tinha ordens para fazer frente às tropas governistas, que já avançavam sobre o povoado de Campo Mourão. Seguia a passos lentos na mata perigosa, com uma informação pesada sobre sua cabeça: sabia que vários comandantes rebeldes já haviam se entregado.
Em sua trajetória, Cabanas encontrou o obrajero Julio T. Allica, que tentou dissuadi-lo de seguir adiante, pois as tropas do governo que avistara naquele caminho eram muito poderosas. Cabanas continuou a marcha rumo à localidade de Piquery. E quando soube que Allica armazenava armas dos federais, mandou prender seu administrador geral e os respectivos capangas. Todos os funcionários foram obrigados a comparecer ao povoado.
Passados quatro dias começou a chegar o pessoal, formando-se depois uma multidão de mais de mil indivíduos andrajosos, tendo cada um em si, os característicos de uma vida miserável que passavam sem os mais rudimentares cuidados de higiene; uns bestializados pelos maus tratos, riam alvarmente, olhar parado, em ponto fixo imaginário. A grande maioria com os artelhos (dedos dos pés) deformados pelos bichos de pé, faces intumescidas pela anchilostomiase ou pelo mal de Chagas, movia-se lentamente; mulheres cabisbaixas, quase inconscientes sofrendo idênticos males, deixando apparecer pelos rasgões das saias, pernas esquálidas; sentavam-se aos grupos pelo povoado, tendo ao redor crianças cor de âmbar, ventres crescidos, somnolentas e tristes como velhos chineses desesperançados da vida. (...) No meio desse rebanho humano que parecia ter surgido de ignotas paragens onde o sol não penetra, e não existe civilização, destacam-se arrogantes, supurando saúde, bem vestidos, finíssimos e franjados ponchos ao hombro, vistoso lenço de seda ao pescoço, botas de estylo carnavalesco, retinindo as esporas de prata, os famosos capatazes, modernos e sanhudos feitores, sem alma e sem consciência, brutaes até a violência, encarregados de exhaurir as forças daquelles escravos até o aniquilamento, para extrahir da matta bruta a preciosa folha que remettida aos moinhos de Buenos Aires se transforma em ouro. (Cabanas)
O comandante explica que a visão paradisíaca que turistas e cronistas tinham do Oeste paranaense — e sobre a qual ele próprio já tomara conhecimento através de publicações —devia-se a uma ilusão provocada pelos obrageros. Eram estes que conduziam os visitantes em suas luxuosas barcaças até as pousadas, onde o infeliz literatto (...) fumando um puro havana, se embala em macia rede cearense. E se tinha o privilégio de hospedar-se numa das faustas mansões dos adminstradores ou dos próprios proprietários, não seria difícil convencer o itinerante de que realmente o paraíso existe e está collocado no valle do Paraná.
Vander Piaia argumenta que a visão dos cronistas tinha um interesse menos sociológico e mais fisiográfico. Gostavam de divulgar as fantásticas cataratas e outras belezas naturais, sonhando com riquezas minerais possivelmente guardadas pelos grandes rios, mas estavam pouco interessados nas condições de vida daqueles que sustentavam os impérios da erva-mate.
Outras obrages foram atacadas pelos revolucionários. Na visão de Cabanas, a única digna de respeito era a Matte Laranjeira, por ser considerada brasileira pelo comandante, segundo C. Martinez (1925). Nada lhe falta, nem mesmo um código de postura e um serviço de policiamento que proporcionam asseio e ordem (...) com ruas largas e limpas, com praças arborizadas, as suas casas bonitas, o seu esplêndido hotel, as suas oficinas, os seus casinos e o seu cemitério. Cabanas também exalta as obras de caráter público da empresa, como a construção de pontes e estradas, além de mencionar as plantações systemáticas e em grande escala (...) que garantem a este (estado) um futuro econômico egual ou talvez maior que aquelle que o café deu a São Paulo.
Cabanas dispersou os operários encontrados em Piquery, enviando-os ao Paraguai. Mais adiante, foram encontrados 6 cadáveres e entre eles 2 de mulheres, todos horrivelmente mutilados, segundo o comandante. Um inquérito realizado por ele demonstrou que aquele era o resultado de uma revolta dos operários de Allica. Comunicou o Estado Maior da Brigada, apontando Allica como culpado pela chacina, porém o obragero não foi sequer julgado.
A cidade de Foz do Iguaçu foi tomada sem grande esforço. A ferocidade dos rebeldes havia sido divulgada pelo próprio comandante legalista, Dilermando de Assis, que fora escorraçado de Guaíra. Temerosa dos rebeldes, grande parte da população de Foz deixou a cidade. Nessa época a força pública local não passava de 18 soldados.
A intenção dos revoltosos era abrir caminho até Guarapuava, possibilitando o contato com as tropas que subiam do Rio Grande do Sul. A comunicação entre as facções dava-se por meio de uma rádio instalada em Porto Aguirre.
Garcia e seus comandados foram interceptados pelos federais na Serra dos Medeiros e Belarmino, localizada entre Catanduvas e Laranjeiras do Sul, no dia 15 de novembro de 1924. A batalha foi uma das mais violentas de que há memória nos fastos militares do Brasil (Lima, 1979). Os combates estenderam-se durante 40 dias, resultando na vitória dos rebeldes.
Apesar da visão justiceira de alguns oficiais revolucionários, testemunhos da população local denotam a violência com que os soldados paulistas abordavam os mansos moradores. Tivemos que nos trancar dentro dos ranchos, vendo pelas frestas eles arrancarem nosso feijão. (...) Comeram todo o feijão, mataram porcos e até vacas para se alimentarem (Laurentina Lopes Schiels, jornal “O Paraná”). Quando eles chegaram aqui todo mundo teve que fugir, toda a cidade foi saqueada e dominada por vários meses. Houve até um fuzilamento. (...) O fuzilado chamava-se Franklin de Sá Ribas. A família dele mais tarde foi indenizada pelo governo (Otília Schimmelpfeng, jornal Hoje/Foz). Eles chegaram aos montes e no dia 5 arrombaram e saquearam minha casa comercial. Foi uma demolição quase completa. Derrubaram paredes e o assoalho (Theodoro Rodrigues da Cunha, depoimento a Alceu Sperança).
A vila da Central Barthes foi atacada e queimada. No depósito instalaram-se equipamentos de artilharia, oficina mecânica e enfermaria.
Uma aproximação mais pacífica das propriedades rurais era realizada por Prestes e seus soldados gaúchos, que marchavam em direção a Foz do Iguaçu. Meu marido ficou muito amigo de Luis Carlos Prestes. Eram gente muito boa. (...) A luta deles era pela liberdade e por melhores condições de vida para o povo. Mas mesmo assim nosso medo era grande. (Marieta Shinke, jornal Nosso Tempo, 1981)
Além dos combatentes que permaneciam nos postos já dominados, os revolucionários mantinham dois batalhões de infantaria e um de cavalaria na Serra de Medeiros.
Com a tomada de Guaíra, Foz e Serra dos Medeiros, o coronel João Francisco considerava que de um só golpe conquistamos um território maior que a Suíça (Domingos Meirelles, 1996). Na região de Campo Mourão, às margens do rio Piquiri, o combate aos federais era mantido pelo comandante Miguel Costa. E a localidade de Cascavel havia sido brindada pela primeira vez com algo de importância: um quartel general da divisão (Piaia, 2010).
Em Catanduvas, como em outros flancos, os rebelados encontravam-se em condições físicas lastimáveis. Os habitantes locais dividiam com eles o parco alimento de suas famílias. As chuvas castigavam as trincheiras, ensejando o aparecimento de doenças sobre os corpos debilitados. A sarna era o seu maior martírio, causando chagas difíceis de curar, pois não havia remédios. Com as roupas em farrapos, muitos deles descalços, os combatentes eram tristes figuras.

A BATALHA DE CATANDUVAS
Catanduvas localiza-se numa elevação estratégica, e dispunha de estação telegráfica interligando Porto Mendes e Foz do Iguaçu. Era um ponto adequado para estabelecer-se contato com Guarapuava e outras cidades do país. Apesar das dificuldades, a Coluna estava avançando e tinha grandes chances de estender suas forças rumo ao Leste. Mas a notícia de que o general Cândido Rondon fora designado para comandar as tropas federais causou mal estar entre os revolucionários. Eles conheciam o grande estrategista que vinha combatê-los.
Rondon iniciou instalando um aeroporto em Laranjeiras do Sul. Não foi de muito proveito, visto que as chuvas logo transformaram a pista num lamaçal, dificultando o pouso de aeronaves. Mesmo assim, ganharam fama na região os gafanhotos de aço. Embora enfrentando os problemas da selva, os 12 mil federais disponíveis estavam em melhor condições de combate, sustentados pela logística estabelecida em Guarapuava e Ponta Grossa.
Rondon pretendia ir empurrando, lentamente, os rebeldes para as fronteiras da Argentina e do Paraguai. Ao se sentirem encurralados nas barrancas do rio Paraná, exaustos, sem víveres e sem munição, só restaria uma saída: a rendição incondicional. (Meirelles, 1996). E assim procedeu o comandante, lançando-se sobre o inimigo sem pressa, retrocedendo, tornando a avançar, de forma a destruir a já debilitada estrutura psicológica dos inimigos.
Naqueles momentos cruciais em Catanduvas, assolados pela fome e pelo cheiro da morte, os sonhos de conquista se tornaram um plano vago, a sobrevivência se tornara o objetivo mais urgente. (Piaia, 2010)
Luiz Carlos Prestes subia desde o Rio Grande do Sul, mas não conseguiu chegar a tempo para auxiliar na defesa de Catanduvas. Sua coluna estava debilitada devido a deserções e grandes baixas ocorridas em combates. Após ardente batalha com forças federais em Barracão-SC, seu maior empecilho estava sendo a travessia do Iguaçu. O batalhão teve de construir suas próprias canoas para traspor o rio.
A batalha final em Catanduvas deu-se no dia 29 de março de 1925, resultando na prisão de 407 rebeldes. Os vencedores também apreenderam 85 fuzis Mauser, cinco fuzis-metralhadoras, cinco sabres com bainha, três canhões Krupp 75, oito granadas e outros equipamentos de combate.
O povoado de Catanduvas imediatamente tornou-se conhecido nacionalmente. No dia seguinte jornais do Rio de Janeiro anunciavam a vitória de Rondon. A queda da importante cidadela revolucionária transforma-se no principal assunto na capital (Meirelles, 1996). O jornal A Notícia trazia a manchete: Virtualmente terminado o movimento revolucionário. O tenente Cabanas está ferido. Meirelles completa: A notícia de que o legendário Cabanas está à morte comove mais a opinião pública do que o desmoronamento das trincheiras de Catanduvas. Não se fala em outra coisa em toda a cidade.
As notícias sobre Cabanas eram falsas. Ele havia se deslocado até Foz do Iguaçu, em busca de reforços e alimento. Retornando a Catanduvas, encontrou nas proximidades de Cascavel um grupo de rebeldes em fuga.
A rendição de Catanduvas, facto desastroso na história da revolução, merece um capítulo à parte. (...) No dia em que segui para Iguassú, reinava calma absoluta nos acampamentos... Mas, nesse mesmo dia à tarde, a artilharia inimiga rompeu vivíssimo fogo contra nossas posições, ao mesmo tempo que a infantaria cahia com violenta carga de bayonetas em todas as trincheiras e destacamentos isolados. (...) No dia seguinte, sem diminuir durante a noite a intensidade do bombardeio, o inimigo enveredou pela matta abrindo picadas, contornou as trincheiras da referida ala e foi sahir a 2.500 metros, na retaguarda, em uma fazenda denominada Queimada. (...) Ao amanhecer do dia 30 o inimigo sabendo não existir mais cartucho, dá sinal de carga de infantaria e a nossa trincheira principal, de frente, agita tristemente uma bandeira branca. (Cabanas)
O encontro entre os rebeldes paulistas e gaúchos deu-se somente no dia 11 de abril, na vila de Benjamin Constant, para onde confluíam as estradas de Catanduvas, Foz e Santa Helena.
Para nós, que vínhamos do Rio Grande, a decepção era enorme, porque tínhamos feito toda aquela marcha na suposição de que os paulistas eram uma força mais bem organizada, mais bem armada, com melhores recursos. (Farias, Camargo e Góes, 1981)
Mesmo em fuga, os revoltosos ofereceram combate aos perseguidores, em Porto Mendes, Salto, Mutum e outros locais. Durante uma reunião do comando, realizada no dia 12 de abril, em Foz do Iguaçu, sob a liderança de Prestes, mesmo sentindo a angústia da derrota, vários chefes militares decidiram continuar a luta, com a proposta de invadir o estado do Mato Grosso. Cercados por todos os flancos, restava-lhes a retirada através da estrada que conduzia a Cascavel.
Coube-me, em tais circunstâncias, a missão de barrar a progressão inimiga sobre o eixo Cascavel-Benjamin, em condições de cobrir o escoamento da Coluna Prestes pela carroçável – Km 76 – Porto Santa Helena – organizando-se, então, uma posição defensiva, a sueste do Depósito Central, que foi guarnecida com o Batalhão Cabanas, a Companhia Virgilio Santos, um Pelotão da Cavalaria e uma Seção de Artilharia. (Relato do comandante Juarez Távora) 

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

O PATÍBULO DOS INOCENTES

A pena de morte para corruptos tem sido um sonho cultivado por muitos justiceiros ao longo da história humana. No momento há um levante desses justiceiros na internet. Pena de morte já!!! Sim, os corruptos deveriam ser enforcados, esquartejados, guilhotinados e empalados no mastro da bandeira. Pois não há nada mais honroso que servir à população, porém muitos eleitos usam essa “honra” para roubar o leite das crianças, a merenda escolar, a casa dos miseráveis, os cursos técnicos que por causa da roubalheira acabam não sendo levados aos agricultores, etc. Sim, esses ladrões do patrimônio público não são dignos da nossa piedade. Vamos mandá-los todos para o paredão e tacar chumbo!
Pare!
Você já pensou como seria o Brasil após a instituição da pena de morte para políticos corruptos? Correria tanto sangue que daria para encher a represa do Cantareira e todas as cacimbas nordestinas. Os rios Tietê e Iguaçu tornar-se-iam pontos turísticos, viriam caravanas de todo o mundo para ver aquele lodo preto substituído pelo escarlate. Sangue, muito sangue dos corruptos correndo pelos nossos rios!
Mas seria mesmo o sangue dos corruptos? Num país corrupto como o nosso, você acredita que seriam eles os condenados?
Conta-se que no Japão, no Irã ou sei lá qual país a Leste do Meridiano de Greenwich, o político ladrão é fuzilado e sua família é obrigada a pagar a bala de fuzil que o matou. Mas naqueles países existe uma coisa que desapareceu faz muito tempo destes trópicos: a vergonha! Lá pros lados do Sol Nascente há uma coisa que eles chamam de honra. Talvez seja uma farofa que inventaram para si mesmos, mas o fato é que funciona, pelo simples fato de que eles acreditam nela! Quando um político rouba, sua família fica desonrada e somente sua morte fará limpar um pouco da sujeira. Mas no Brasil, na Itália e noutros países de origem latina, a honra e a vergonha foram enterradas há muito tempo.
Se você quer pena de morte, volte à França de Robespierre, 200 anos atrás. Naqueles anos a guilhotina se fartou de degolar inocentes em praça pública. Até que o principal mandante daquela “limpeza”, ou daquela chacina, também foi para o patíbulo. Sua cabeça rolou num cesto, junto com milhares de inocentes.

Você percebe o que aconteceria no Brasil, caso fosse instituída a pena de morte para políticos? Com nossos juízes corruptos, nossos desembargadores sem-vergonhas e nossos legislativos comprados, muitas cabeças iriam rolar, sim: as cabeças daqueles que não teriam dinheiro para comprar os juízes, os desembargadores, os promotores, os deputados, os senadores e os vereadores! Rolariam as cabeças daqueles que clamam pela verdade e pela justiça! Os políticos bandidos teriam muito prazer em eliminá-los num só golpe! Os corruptos, ladrões e todas as subespécies de bandidos da política assistiriam dos camarotes, especialmente construídos na praça para que eles se refestelassem com o espetáculo!

domingo, 17 de maio de 2015

TODA MOEDA TEM DOIS LADOS E UMA BORDA

Somente leio a Veja quando ela passa aqui pelos sofás, de quando em quando, e já com atraso de semanas ou meses. Melhor assim. Lendo com um certo distanciamento, a acidez e o veneno de suas páginas irrita menos as minhas narinas.
Apenas hoje vi a edição de 21/janeiro/2015, na qual a revista do PSDB eleva a herói o filósofo francês Pierre Bayle, que diz lá no século 18 que “as religiões tentam destruir umas às outras pelo método da perseguição”.
Há alguns trechos da Veja com os quais somos obrigados a concordar. Quando fala de culinária, botânica e novela, por exemplo. Algumas vezes também acerta em temas mais polêmicos, como este acima. Bayle realmente foi um dos maiores lampiões no Século das Luzes e injustamente ignorado pela posteridade. O problema é que na matéria citada, e em várias outras da edição referida, a revista tenta provar que o “islamismo radical” é um mal em si mesmo. Nasceu sem nenhum motivo, senão o de destruir tudo que não se refira a Maomé.
Como tudo que Veja vende aos brasileiros, nesta edição ela também só mostra um lado. Os tais radicais são maus e chega de conversa! Ora, isso não é radicalismo? Veja se mostra tão radical e violenta quanto alguns islâmicos radicais. O resultado de suas palavras-farpas só não resultam em sangue porque ninguém a lê fora dos escritórios e salas de espera de dentistas do Brasil! E num ou noutro sofá, como já foi dito!
Nunca vi nesta revista uma matéria intensa e severa sobre o papel dos Estados Unidos no Oriente Médio. Em 2003, pouco antes da invasão do Iraque e da destruição de Bagdá pelos americanos,  Veja mostrou em sua capa um soldado iraquiado maltrajado e raquítico portando uma garrucha, e na mesma capa um super-herói estadunidense, saudável, musculoso, carregando 100 quilos de armas e outros super-apetrechos em suas costas, cintura e braços. Veja tirou casca dos iraquianos, mas os iraquianos mostraram que “os Estados Unidos enfiaram a mão num vespeiro e agora não conseguem tirar”, como disse em 2005 um dos maiores estrategistas militares norte-americanos.
Veja finge ignorar que há um câncer instalado no Oriente Médio desde 1946, quando USA e Inglaterra decidiram criar o estado de Israel. É ali que se gera 97,49% do ódio árabe contra judeus e americanos.
Com o poder (i)moral das bombas atômicas recém-deflagradas, os vencedores da II Guerra podiam convencer qualquer país do mundo a ceder um espaço de terra boa e fértil aos judeus. Assim como não foi difícil convencer os árabes de que eles teriam de ceder aquele território. Mas por que escolheram aquele deserto em vez de uma fazenda no Mato Grosso?  Porque aquilo é a Terra Santa, como tanto falam? Não! Pode ser que aquela terra tenha sido santa, mas hoje é duvidoso, considerando todo o sangue ali derramado “em nome de Deus”. Mas o verdadeiro motivo da escolha é que nessa região está o petróleo, e os USA necessitavam de um posto avançado para suas forças armadas para poder controlá-la. A conversa religiosa, neste caso, é conversa de vendedor. Por acaso ela também serve ao discurso dos judeus que realmente têm fé e que acreditam ser aquele o único lugar em que podem viver. Serve também à vaidade perpétua dos fanáticos leitores da Veja, que preferem o discurso fácil do “atiremos as bombas, seja lá contra quem for, desde que parem de incomodar”, ao invés de virar a moeda para ver o que tem do outro lado.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

SE QUEREM LIBERDADE, DERRUBEM O DITADOR!

Peço licença aos machos de plantão para fazer algumas considerações sobre o feminismo.
Tenho visto muitos homens criticando e/ou ironizando as feministas, e isso tem um motivo milenar: eles querem continuar no comando. Batendo nelas sempre que ficam nervozinhos, usufruindo de seus serviços, exibindo-as para os amigos, usando os mimos femininos para abastecer seu orgulho. Por outro lado, tenho visto um igual número de mulheres criticando/ironizando o feminismo. Preferem continuar subjugadas. Tudo bem, é problema delas. Mas não podem exigir que todas as mulheres sejam objetos de adorno, de trabalho e de sexo de seus machos. 
As feministas, por seu turno, dividem-se em várias facções. Há aquelas que gostariam de exterminar os homens, e após o advento da clonagem já vêem próximo a realização deste sonho. Odeiam os homens porque foram mal-amadas por eles, ou porque nunca conseguiram se aproximar de um deles, e baseiam esse sentimento nas más notícias sobre o nosso gênero. Essas mulheres foram traumatizadas em algum momento da vida, ou já nasceram azedas. Elas obterão a cura, mas antes terão de admitir que estão doentes. Sim, pois não há saúde em pessoas que desejam o extermínio de outras. Isso sempre será uma doença! 
Mas há também as feministas que gostam de si mesmas, tanto quanto gostam dos homens. Lutam com todas as suas energias para estabelecer uma harmonia entre os gêneros, e têm sofrido um bocado nesse processo. Porque a maioria dos machos não quer harmonia alguma. Eles querem mostrar que são fortes, espertos, belos, indomáveis, ousados, livres e mais uma porção de coisas que cabem numa caixinha de fósforos — dessas coisas que podem ser queimadas e jogadas no lixo sem causar muitos traumas à natureza. Raros são os homens/machos capazes de olhar uma mulher e ver nela uma sua igual. Não nas formas, não no comportamento, não nos desejos, não nos sonhos, mas sim nos direitos. As mulheres feministas de mentes livres estão atrás desses homens que superaram o menino babão que passa a vida tentando mostrar o quanto é forte, esperto, belo, indomável, ousado e livre! Mas essas mulheres, para o azar delas e de toda a humanidade, são desunidas, e muitas vezes obedecem ao comando primitivo de competir entre si, e também de mostrar às suas amigas o quanto são fortes, espertas, belas, etc. Ocorre que o feminismo está em fase de pupa, ainda. Apesar de alguns machistas — homens e mulheres — afirmarem que o feminismo alcançou seu auge décadas atrás, percebo que as borboletas ainda não deixaram o casulo. Nós ainda não vimos as mulheres verdadeiramente livres, feito um bando de belíssimas monarcas, sobrevoando nossas cidades e reconfigurando as nossas praças. Elas ainda temem o sistema machista e ditatorial que vigora mesmo nos meios mais “democráticos” deste grande palco de mentiras. 
Muitas acreditam que obtêm a almejada liberdade posando nuas. Mal percebem que estão somente fazendo o jogo perverso dos machos, que sempre sonharam despir um grande número de mulheres para seu próprio regalo. Com isso não quero dizer que as mulheres não possam ou não devam se despir e se mostrar. Mas o que tenho visto é mais algema que bandeira desfraldada.
Se quiserem rasgar as últimas sedas do casulo opressivo, as feministas do segundo grupo — as que gostam de homens e que admitem — devem partir para um confronto massivo, mesmo que venha a se tornar turbulento. Que se quebrem os ovos e que se faça de vez esse omelete, oras! Você não consegue liberdade dando agrados ao guarda da sua prisão. Muito menos mandando recados ao diretor. Quem quer liberdade precisa derrubar o ditador. Não há possibilidade de acordo, pois o ditador estará confortável em seu trono enquanto não for derrubado. É realmente isso que estou dizendo: as feministas precisam derrotar os machos, levá-los ao chão, fazê-los comer poeira suja, a mesma que os machos fizeram as mulheres comer pelos séculos dos séculos. Só então haverá uma chance de que esse grande contingente de orgulhosos abaixe o nariz e admita, de uma vez por todas, que homem e mulher são elementos indivisíveis de uma coisa só: a pessoa humana.
Mas como? Como vocês farão para derrubar o grande ditador? 
Há centenas de métodos já testados por mulheres fortes, que conseguiram “conquistar” seus homens depois de levá-los ao chão e fazê-los comer poeira suja. Sim, pois você somente terá um homem de verdade depois de vencê-lo, usando sua criatividade ou copiando de outras que obtiveram sucesso. Talvez esteja na hora das mulheres conversarem mais sobre isso e menos sobre o que os homens prevêem como sendo o certo para elas.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

AULAS CRIADAS

Quando dei aulas no Ginásio Alberto de Carvalho, um pequeno grupo de alunos passou a me visitar com assiduidade. Eles queriam saber coisas extra-escola, então conversávamos sobre tudo, desde viagens à Lua, os movimentos artísticos, os filmes, o rock, as garotas. Por falta do que fazer eu tocava violão, eles ensaiavam um ou outro verso, um tanto tímidos. Depois eu lhes dava pincéis e tintas, com o que desenhavam e pintavam as paredes do quarto. Ao final daquele período letivo meu quartinho estava coberto com as mais bizarras figuras feitas pela piazada.
Você pode pensar: em que um professor contribui deixando um aluno sujar as paredes do seu quarto? Mas o que importa aqui não é o ato em si, e sim o significado: o aluno entra no mundo do professor, está no seu nível, desenhando suas paredes. A conversa não tem hierarquia, pergunta-se à vontade, até mesmo aquelas questões jamais levantadas em sala de aula, como relacionamentos familiares, namoro e dúvidas de toda espécie. A hipocrisia social não permite que esses temas sejam debatidos na escola, mas nem por isso tais perguntas deixam de incomodar os adolescentes. Se não houver um adulto para responder, eles colherão suas respostas junto aos próprios colegas. E assim vão refinando seus conceitos, até se tornarem preconceitos, que depois acabam sendo utilizados para magoar uns aos outros.
Alguns anos depois, quando fui dar aulas de redação numa escola particular, a minha primeira constatação foi a de que eu não sabia o que dizer àqueles alunos. Fazia muito tempo não entrava numa sala de aula. Como nunca fui de planejar o conteúdo das minhas aulas, vi-me com as mãos vazias. Um jogador de futebol que passou anos fora dos gramados sabe o que é isso: quando vem a bola, ele não sabe o que fazer com ela. Leva algum tempo para se sentir à vontade e experimentar uns dribles.
Professores que seguem uma cartilha e dão sempre a mesma aula, têm uma certa facilidade no trabalho diário com os alunos. O problema é que não mudam nada e nada de novo acontece. Isso significa que passam pela vida dos alunos sem alterar coisa alguma. É como se não houvessem existido. Quem se propõe a dar aulas criativas enfrenta um desafio diário: o que farei hoje a fim de que este dia se torne inesquecível para os meus alunos? É claro que nem mesmo o mais criativo dos professores conseguirá produzir aulas inesquecíveis todos os dias, mas se ele estiver empenhado nisso certamente emplacará algumas, e sua passagem pela vida dos estudantes terá um significado especial. Alguma coisa nova aconteceu, algo se transformou na vida dos garotos, mesmo que eles não tenham percebido imediatamente.
Naquela primeira aula de redação olhei a turma, com cerca de vinte alunos, e me dirigi a eles com uma frase que ainda estava formulando em minha mente. “Vamos começar com uma entrevista”, falei. “Quero que vocês juntem as carteiras em grupos de dois”. Logo que eles fizeram esse arranjo dirigi-me aos alunos mais próximos. "Vocês dois, por exemplo. Você é o Charles Bronson e você é um repórter do New York Times. Você faz de conta que é o famoso ator de Hollywood e você vai fazer a ele todas as perguntas que lhe vier à cabeça. No final, quero que você apresente o texto ao Charles Bronson para que ele possa conferir e verificar se os dados estão corretos. Mas não esqueça, sua entrevista será publicada num grande jornal, portanto, capriche. Entenderam como funciona? Agora quero que todos vocês façam como falei. Escolham quem será o entrevistador e quem será o entrevistado. Pode ser um cientista, um atleta, um político. Ou mesmo um cidadão comum, que pode ser um lenhador, um dentista, um vereador”.
No primeiro momento os alunos ficaram aturdidos e sem iniciativa. Mas como acontece nessas ocasiões de impacto, logo a poeira abaixou e eles começaram a trabalhar. Foram tirados do seu sossego e convidados a produzir uma coisa sua, com suas palavras, suas interpretações. É difícil! Mas inesquecível. De repente eles descobrem que podem criar, fantasiar, tirar os pés do chão e viajar a um mundo desconhecido dentro deles.
Eu não poderia esperar que produzissem grandes entrevistas naquele primeiro momento. Mas o burburinho que se instalou na sala significava que estavam empenhados em cumprir a tarefa.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

NO TEMPO DAS DILIGÊNCIAS

 Se você é proprietário de uma frota desses ônibus intermunicipais superconfortáveis, eu o convido para uma viagem de duas ou três horas numa dessas maravilhas, para que você possa desfrutá-la pessoalmente.

Nos dias frios você terá a oportunidade de entrar no veículo lotado, vindo da cidade vizinha, e sentirá com grande prazer aquele bafo quente dos passageiros. Está ali o verdadeiro significado do calor humano. As largas vidraças panorâmicas estão embaçadas com o hálito úmido dos companheiros de viagem, que se mistura ao aroma delicioso que vem lá da privada. Completando o coquetel aromático, um quê de naftalina, que procede de algum local inespecífico, e a bergamota, o almíscar e o sândalo vencidos misturados a várias nuances de suor antigo. Aquele ar gostoso fica circulando de narina em narina. Ao longo da viagem elas vão trocando vírus e outras substâncias ativas e benéficas à saúde, tornando a atmosfera cada vez mais densa, até que, vencido pela rarefação do oxigênio, você dorme e sonha que acabou de estourar a bomba atômica.
Também há aquelas tardes de calor, em que a gente entra no ônibus de camiseta, senta-se e dorme. Enquanto sonha que está fazendo turismo no lixão municipal, o ar condicionado vai extraindo o calor ambiente, vai circulando a fedentina de sempre, e quando você acorda parece que está na Patagônia, gelado, o nariz coçando, preparando-se para a gripe do dia seguinte. Enquanto isso, duas ou três crianças, nauseadas com a fragrância de rosas do veículo, já estão enchendo os pacotes — ou o corredor, quando não dá tempo de vomitar nos pacotes, e aí está feito o clima para a viagem no ônibus superconfortável da sua companhia supermoderna.
Obviamente, você dorme só depois que o filme acaba. Porque nos ônibus supermodernos tem TV e filme de serial killer, para que todas as crianças viajantes possam entender desde cedo de que madeira são feitos os adultos. Isso quando não é filme de terror, para as crianças perderem bem cedo o medo das pegajosas criaturas do Além. Você pode estar cansado e aborrecido, querendo tirar uma soneca antes de chegar ao destino, mas a telinha está instalada bem à sua frente, espalhando cultura americana, mostrando o quanto o herói do FBI é competente cortando o fio azul sempre no último instante para impedir que a bomba estoure no coração de Nova York. O mocinho beija a mocinha, toca a música romântica e você tenta respirar aliviado, mas não dá. Só se botar o nariz por dentro da camiseta. 
Perceba, amigo empresário, como tudo ficou mais emocionante com toda essa tecnologia. E ainda tem gente com saudades daqueles ônibus antigos, nos quais se podia curtir uma viagem silenciosa, abrir a janela quando o vizinho ao lado estava com flatulência depois de comer maionese na casa da sogra. Ou abria-se a janela apenas para sentir o vento no rosto quando era verão. Agora, com as janelas fechadas, ou melhor, sem janela alguma, você não é mais obrigado a dar adeuzinho para a família da esposa, senão através do vidro. E aquela história de entregar um pacote de biscoito de última hora, ou uma fotografia, uma lembrancinha, isso é coisa do passado.
Depois de voltar para casa faça uma pesquisa. Pergunte ao povo se prefere ônibus “convencional” ou com ar condicionado. Não se preocupe, isso só vai dar consistência e justificar os últimos investimentos da sua mega-empresa, pois há uma certeza muito bem enraizada no inconsciente coletivo de que tudo que é moderno é bom. Poucos hesitariam em afirmar que preferem o veículo com ar condicionado. Da mesma forma como, até há pouco tempo, ninguém hesitaria em dizer que preferiria o elegante carpete em vez do convencional e antiquado piso de taco. Até descobrirmos que o carpete é um fantástico criadouro de bichinhos nocivos à saúde humana.

 


Os desconfortos da Civilização Facebook ultrapassam longe os seus confortos. Pelo menos para um velho ranzinza como eu, que preferiria andar de carroça e sentir os solavancos, a morosidade da viagem e o vento no rosto — mesmo que fosse a “ventosidade emitida pelo ânus” do cavalo (Aurélio) — a enfrentar esses longos corredores negros dentro de meu carro estofado, onde respiro o pum intermitente dos bichinhos de lata, arrisco minha vida e encontro centenas de semelhantes que não me dão sequer um adeus por trás de seus vidros escuros.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

ABNEGADOS

Começou com meu tio Michaelys, que trabalhava de saqueiro na cerealista de meu pai. Exímio pescador, gostava da arte da pesca. Mas quando ia conosco aos acampamentos de pescaria raramente descia ao rio. Permanecia no local do pouso, arrumando a barraca, limpando a área e preparando o almoço. Quando voltávamos do rio, contando as mil e uma valentias e vantagens que obtivéramos uns sobre os outros, tio Michaelys já estava com tudo arrumado. O cheiro do churrasco impregnava o acampamento e tudo estava perfeito. Ele também sabia preparar um saboroso tutu de feijão, com que enchia nossas panças necessitadas de energia para mais uma tarde de aventuras.
Apesar de toda a grita dos valentes pescadores — que se entretinham contando as imperícias uns dos outros e as vantagens de si mesmos, o que significava menor e maior capacidade para manejar um barco a remo, menor ou maior destreza ao lançar um molinete, menor e maior habilidade para fisgar um piau ou um mandi — eu percebia que o mais que conseguíamos traduzir, além da nossa evidente infantilidade, era aflição. Um desejo de provar a todo instante o quanto éramos poderosos perante a fraqueza e a inabilidade dos outros. Mas havia entre nós aquele que a tudo observava, e que sobre todas as coisas mantinha um sorriso de plena satisfação. Não havia manejado o barco e o molinete, não havia pescado nada, não havia contado nenhuma vantagem, mas estava absolutamente seguro de ter feito a coisa certa. Tio Michaelys entregava o melhor de si para que nossa turma pudesse se divertir com aquilo que sabíamos fazer de melhor: valentias, trapaças e gabolices.
Nos anos seguintes encontrei outros como meu tio, aqueles que lavam a louça da churrascada enquanto os outros jogam baralho e mostram o quanto são homens. Também encontrei aqueles que se entregam a causas perdidas, enquanto outros aproveitam a perdição da causa para obter grandes lucros. Então compreendi que a entrega põe vida às nossas almas egoístas e enferrujadas. Todos os nossos problemas desaparecem enquanto lavamos a louça e os outros disputam o melhor pedaço da sobremesa. Muitos abnegados cidadão, que lutam pela justiça e que nunca irão a Dallas gastar dólares obtidos na ilegalidade, estarão plenamente satisfeitos consigo mesmos, enquanto os homens-guris passam a vida se ferindo para mostrar o quanto são fortes e espertos!